Crises revelam o que estava mal resolvido e quem estava preparado. Mas também criam oportunidades atraentes para quem enxerga o invisível e aposta no que parece contracorrente. Em meio a retrações, cortes e retraimento de investimentos, há empresas que decidem crescer. E elas fazem isso de forma inteligente: Alocando recursos e capital nas pessoas.
O termo “M&A de pessoas” pode soar inusitado. Tradicionalmente, associamos fusões e aquisições à incorporação de ativos, unidades de negócio, agregação de tecnologia ou participação de mercado. Mas há um outro tipo de movimento discreto, que ganha força, especialmente em tempos de crise: a aquisição de talentos. Sobretudo os técnicos, em setores essenciais, onde a manutenção da infraestrutura depende mais de mão-de-obra qualificada e experimentada, do que narrativas sobre capacidade de investimento.
O mercado brasileiro vive um paradoxo. De um lado, há uma retomada gradual da atividade industrial e expansão em setores estratégicos — como energia, óleo e gás, mineração, logística, saneamento e data-centers. De outro, uma escassez progressiva de profissionais técnicos disponíveis para operar, manter e otimizar esses ativos. Um levantamento recente da Confederação Nacional da Indústria – CNI apontou que 7 em cada 10 indústrias enfrentam dificuldades para contratar técnicos qualificados. Esse gargalo estrutural exige uma resposta urgente e eficaz.
É nesse contexto que o capital humano está no centro do debate. Organizações resilientes perceberam que atrair, desenvolver e reter talentos não é apenas uma política de RH — é decisão de negócio. A crise abre, paradoxalmente, uma oportunidade rara: muitos profissionais de alto desempenho ficam disponíveis por desligamentos em outras empresas, e quem estiver atento poderá agregar esse conhecimento de forma rápida e valiosa. É um “M&A de pessoas”, onde a aquisição está no alinhamento de valores e princípios, conhecimento acumulado, experiência prática e nos casos de excelência em outras jornadas profissionais.
Algumas questões são prementes: como capturar esta oportunidade? Como angariar mais e melhores recursos para formação técnica, criando trilhas de capacitação, promovendo redes de aprendizagem e olhando para o mercado com visão de longo prazo?
Investir em pessoas é muito desafiador. Requer capital paciente, assunção de riscos, abordagem abrangente – notadamente em saúde física e mental – e experimentação. Não é coincidência que as empresas que se destacam em ambientes de alta pressão sejam aquelas com times altamente capacitados — técnica e emocionalmente.
Essa não é uma percepção isolada. O Mapa do Trabalho Industrial 2025–2027, elaborado pelo Observatório Nacional da Indústria, da CNI, projeta que o Brasil precisará qualificar cerca de 14 milhões de profissionais nos próximos três anos. Desses, 2,2 milhões são novos profissionais que ainda precisam ser formados, e mais de 11 milhões precisam ser requalificados para atender às novas exigências do setor produtivo. A escassez de profissionais técnicos já é uma realidade, que compromete a competitividade e a resiliência de nossa economia ante aos desafios postos e que estão por vir.
A firme orientação para a formação e valorização de talentos técnicos vai muito além da política de recursos humanos: é uma licença para operar. Neste ambiente de reconfiguração de cadeias de negócios, formação de “arquipélagos” de comércio internacional, re-significância do trabalho com o uso de inteligência artificial, dentre outras mudanças, vale o que aprendi com a frase do Embaixador Walther Moreira Salles e que persiste até hoje numa das maiores organizações brasileiras: “Somos pessoas que atendem pessoas. Por maiores que sejam os recursos tecnológicos à disposição (…), ainda assim, ao final de cada comutação eletrônica, permanecerá a circunstância simples e irredutível de pessoas servindo pessoas.”
Carlos Moura
CEO da Manserv


