Blog

O papel estratégico da manutenção na competitividade do Brasil

Por muito tempo, a manutenção foi percebida como um custo necessário. Quando tudo funcionava bem, era imperceptível. Quando algo parava, era ela quem carregava a culpa. No fundo, a manutenção está associada à mentalidade de “seguro”, voltada à preservação da performance e da lucratividade.

Atualmente, essa percepção está mudando: a manutenção passou a ocupar uma posição de relevância na inteligência operacional das empresas, especialmente em um país de dimensões continentais que ainda convive com gargalos logísticos, apagões energéticos e estruturas envelhecidas. Se a produtividade depende diretamente da disponibilidade aplicada à eficácia, manter os ativos em plenas condições de operação é uma necessidade estratégica.

E essa disponibilidade, nesse contexto, não ocorre por acaso. Ela é resultado de planejamento sólido, que vai além da simples prevenção e correção de falhas. Trata-se de antecipar cenários, garantir desempenho, prolongar a vida útil dos equipamentos e assegurar previsibilidade nos resultados. Em última instância, a manutenção atua na proteção dos investimentos e na garantia do funcionamento contínuo de setores que não podem parar.

Segundo relatório da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o setor industrial brasileiro consumiu 16,3 mil GWh de energia elétrica em junho de 2024 — o equivalente a 36% de toda a energia utilizada no país. Esse dado evidencia a importância da atividade industrial para a economia e reforça o protagonismo da manutenção para que essa atividade seja produtiva, inclusive sob a ótica da eficiência energética e operacional. Afinal, cada hora parada custa caro — seja pela interrupção em si, seja pela curva de retomada das operações.

Ao longo das últimas décadas, a experiência acumulada no setor demonstra que os casos de sucesso são viabilizados, entre outros fatores, por ações bem estruturadas de manutenção — como as preditivas planejadas com precisão e a pronta resposta das corretivas diante de falhas. Em momentos de incerteza, a manutenção eficaz se torna ainda mais estratégica: permite reduzir riscos, otimizar recursos e manter a continuidade dos processos produtivos, mesmo em cenários de forte restrição orçamentária.

A nova era da manutenção industrial se apoia em três pilares fundamentais: tecnologia, processos e pessoas. Do ponto de vista tecnológico, os avanços incluem sensores inteligentes, drones, análise preditiva e plataformas digitais que viabilizam diagnósticos ágeis e decisões mais precisas. No entanto, a tecnologia só gera valor quando sustentada por processos robustos — e, principalmente, por pessoas qualificadas, comprometidas com disciplina operacional, segurança e excelência em cada intervenção.

A formação e retenção desses talentos é hoje um dos maiores desafios — e uma grande oportunidade. O Brasil precisa reconhecer esses profissionais como ativos valiosos, muito mais do que “mão de obra”. A engenharia, o planejamento, a análise de dados e a inteligência aplicada às operações passam, todos os dias, pelas mãos de pessoas – com toda a diversidade – dedicados a manter a indústria viva.

Nesse cenário, as empresas prestadoras de serviços de manutenção têm um papel determinante no fortalecimento da infraestrutura brasileira. Mais do que garantir o funcionamento dos sistemas industriais, essas companhias contribuem para elevar o padrão de qualidade das operações, promovendo inovação, sugerindo melhorias e adotando soluções mais eficientes, sustentáveis e seguras — além de fomentar a formação de uma nova geração de técnicos especializados em diversas regiões do país.

Para alcançar esse patamar de excelência, é necessário investir em modelos de relacionamento baseados em parceria profunda com os clientes — e não apenas em contratos baseados em homem-hora. Ouvir, compreender os desafios e alinhar-se às estratégias dos clientes é essencial para cocriar soluções que, de fato, gerem valor.

Não por acaso, a atividade vem ganhando cada vez mais reconhecimento — especialmente em setores como energia, mineração e óleo e gás —, nos quais a manutenção é peça-chave para assegurar segurança, confiabilidade e eficiência. Em ambientes operacionais complexos, sua função é prevenir falhas, evitar interrupções não programadas e garantir o cumprimento de exigências regulatórias — sobretudo diante de demandas crescentes nas agendas ambiental, social e de governança (ESG). É essa abordagem sistêmica que sustenta o avanço dos segmentos mais relevantes do PIB industrial brasileiro.

Para que o Brasil se torne mais competitivo, precisamos investir em infraestrutura e em manufatura com alto valor agregado — mesmo em meio às suas contradições e cicatrizes. Neste contexto, promover a disponibilidade, a segurança e a longevidade dos ativos seguirá sendo um compromisso inegociável da manutenção. Mais do que estratégica, essa atividade é essencial, humana, além de sustentada por tecnologia e conhecimento técnico especializado.

Carlos Moura
CEO

Compartilhe

Artigos Relacionados